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20 abril 2012



Eu queria escrever um diário. Seria mais fácil se eu fosse um pouco mais realista, mais pé no chão, mais Machado de Assis, que conseguia descrever cada passo dos personagens detalhadamente e só então neles imprimia emoções. Descobri que o que escrevo se chama fluxo de consciência, nunca achei definição mais perfeita. Fluxo, incontrolável fluxo, continuidade de emoções e pensamentos, vinculados ou não entre si, que se passam no âmago de uma simples existência.
Lembrei de quando eu era uma pré-adolescente e morava naquela casa de madeira da Zona Norte. Eu escrevia diários detalhistas e que continham cada minúcia dos dias vividos. Vividos. Acho que foi uma das únicas séries de anos realmente vividos por mim. E, sem maiores divagações, aquela era a época em que meu diário recebia informações variadas, não dependendo de meu estado emocional para ser procurado. As tristezas que me afetavam, como uma nota baixa, uma birra com a melhor amiga e uma ignorada do paquera da vez estavam todas lá, impregnadas nas folhas de papel escritas à mão com toda a intensidade possível para uma menina de doze anos. E que intensidade.
Falo disso porque não entendo o motivo de hoje não conseguir escrever. Acho que ao me tornar mulher – fato que passou despercebido – as tristezas passaram a ser de verdade, os amores agora são para casar, as melhores amigas cometem grandes erros e as notas valem o futuro da minha profissão. Acho que agora só tenho tempo para sentir, não para escrever; e os sentimentos não passam daquela confusão do primeiro instante em que aparecem. Acho que um psicólogo doutorado em semiótica explicaria melhor. Mas eu só sei sentir as primeiras sensações, não consigo racionalizá-las, transformá-las em signos, torna-las transponíveis ao mundo das palavras e das interpretações humanas. E elas ficam para sempre sendo sentidas, claro que às vezes são esquecidas, mas quando surgem outras novas, todas aquelas que já estavam desaparecendo resolvem voltar à tona para não ficar pra trás.
Eu as amo. Todas elas. Amo as sensações. São elas que me dão continuidade, não a esse respirar e pulsar de cada segundo, mas à verdade essencial do que me tornei. E mal sei o que me tornei. Talvez se eu tivesse escrito todos os dias, hoje teria contato com o que fui e com a forma como me transformei, que não me foi apresentada devidamente.
Me sinto ao mesmo tempo, mera expectadora e intensa roteirista. Acho que escrevi tudo tão detalhadamente, esperei ansiosamente por cada momento, por cada fase, cada pessoa, cada sentimento em vão, que esqueci de assistir no momento certo. E o momento certo passou, sem ser visto e apreciado. O momento passou sem que eu pudesse sentir seu cheiro – porque cada momento tem um cheiro – sem ser visto e apreciado com calma.
E de agora em diante? 

19 abril 2012



O salto é grande, mas o tempo é um tecido invisível
em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro,
uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode
bordar nada. Nada em cima do invisível é a mais sutil
obra deste mundo, e acaso do outro.

17 abril 2012

Eu não sei em que momento do caminho eu deixei de ser menina e virei mulher. Talvez tenha acordado assim de um dia para o outro, mas acho difícil não ter percebido. Quem sabe perdi um pouco da meninice a cada dia, sem que alterasse repentinamente meu modo de ser. Mas eu queria ter podido sentir, queria ter observado isso acontecer, como se estivesse fora, mesmo com todas as sensações de dentro. É tão difícil não ser mais menina, é dolorido perceber que chegou a época que eu via de maneira tão longínqua, e o que é pior, sem poder ter visto a transformação.
Não sei se foram as mudanças, as culturas, os amigos infiéis, a rotina cansativa da busca pela independência financeira. Nem me passa pela cabeça terem sido algumas paixões ou não, as puxadas de orelha dos pais, dos chefes ou da vida.
Mas eu me tornei mulher e nem tinha planejado isso. Eu sabia que teria idade de mulher um dia, corpo de mulher, profissão de mulher, salário de mulher, mas jamais imaginava ser uma. E ser é mais profundo, é de longe muito mais impactante que todo o esteriótipo.
E eu ainda não sei o que fazer com isso.

04 abril 2012

30 março 2012

19 janeiro 2012

Cara, eu cansei. Só quero que seja natural, simples, fácil e bom. Não quero falar o que meus amigos me mandam falar porque se eu falar o que eu tenho vontade de falar poucos vão ficar. Eu não quero poucos. Eu não quero muitos. Eu quero um. Um amor. Só um.
Tem que dançar charmoso, ser irônico, ser calmo, porém macho (ou seja, não explodir por nada, mas também não calar por tudo). Tem que ser meio artista, mas também ter que saber cuidar dos meus problemas burocráticos. Tem que amar tudo o que eu escrevo e me olhar com aquela cara de: essa mulher é única.

13 dezembro 2011


        Para minhas amigas especiais:
 
As milenares indagações acerca do amor e suas acepções pareceram sempre tão inúteis para mim quanto as tentativas de paz mundial. Um assunto sobremaneira inalcançável e que, de tão amplo, me passava a desgostosa sensação de impotência. Mas percebi que é a minha própria ineficácia que a ele me mantém ligada, como se fosse o meu vazio inato que, sedento, do meu mais íntimo, clamasse por respostas, por sensações, por uma ligação forte o suficiente com o inatingível. E percebi, também, que cada uma de nós tem essa mesma fraqueza, esse mesmo vazio, essa mesma sede, claro, em medidas e intensidades tão distintas quanto nossos amores e dores, mas ligadas da mesma maneira com indagações idênticas e silenciosas. Em cada volta impercebível do planeta em torno do Astro-Rei e em cada vez que ele renasce autossuficiente ao nosso leste, há algo mais que renasce dentro de nós: a sede. E o café da manhã, o almoço, a janta, todas aquelas garrafas de água ou o café da faculdade não a matam. Ela continua em cada uma de nós, não importa o quanto o tempo passe, e não chegamos a ignorá-la, somos inteligentes o suficiente pra saber degustar a sede, por mais incongruente que pareça. A saboreamos minuto após minuto do dia, com ou sem estresse, com ou sem companhia, com ou sem os esqueletos inertes que costumamos chamar de amor. Juntas ou não, a sede é idêntica. Sede do desconhecido que parece que jamais será conhecido e exatamente por isso é excitante. Sede das perguntas milenares que tantos dizem não possuírem respostas, mas que, no mais íntimo, sabemos responder. Porque nós estamos ligadas por um fiozinho invisível às respostas mais procuradas durante milênios, porque nós acordamos diariamente sedentas pelas respostas e as encontramos sozinhas e sem muita pesquisa. Porque nós encontramos umas às outras e temos a certeza de ter, junto a isso, tomado conhecimento das indagações mais profundas acerca do amor. Nós estamos ligadas ao amor mais milenar quando nos ligamos entre nós, ou mesmo nas defeituosas tentativas de nos desligarmos. Por mais errado, por mais impuro e deformado que pareça quando o colchãozinho é tirado do chão ou quando falta uma ou duas xícaras de chá quente no inverno, temos a inatingível certeza de que há amor entre nós. Ou melhor, nós somos o amor.

10 novembro 2011

Amar dói tanto que não dói mais, como toda dor que de tão insuportável produz anestesia própria.
Tenho percebido que as palavras tentam escapar aos montes de dentro da minha mente, coração e de outros lugares desconhecidos. E, como me é de costume, preciso dar um jeito nelas, organizá-las, sistematizá-las, olhá-las como se estivessem fora de mim, até porque é isso o que acontece. Eu, vagarosamente, as transporto por esse corpo que parece tão pequeno diante da grandiosidade das palavras, e estas transcendem meu físico e se transformam pouco a pouco em uma singularidade que é o preto e branco da tela do meu computador ou de um pedaço de papel qualquer. Ultimamente elas têm se tornado desesperadas e, mais do que isso, desesperadoras, ao passo que não mais me deixam andar em paz quando estou cansada voltando do trabalho ou quando sento na varanda pra sentir o vento, elas me perturbam sem pedir licença. E aqui estou, escrevendo. Como se fosse a forma mais límpida de me livrar das milhares de letrinhas que dizem bem mais do que qualquer um poderia imaginar, mas expressam menos do que os sentimentos que representam. Coloco no papel bem mais do que fonemas ou combinações que podem ser lidas até por uma criança recém alfabetizada. Mais do que isso, eu me entrego ao papel, como se fosse a única forma digna de se dormir mais uma noite, gritando silenciosamente cada uma das voltas ao mundo que minha mente dá em cada palavra.

26 outubro 2011

Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males.

25 outubro 2011

Pensando bem, é muito provável que eu seja capaz de fazer a maior parte do que dizem que faço. São admissíveis, de certa forma, as acusações, as difamações, as torturas psicológicas absurdas a que me submetem sem provas ou sem a mínima noção do que seja verossímil. Tenho plena capacidade psicológica de matar alguém, de torturar, de arrancar as unhas uma a uma, de amarrar em uma árvore e cortar fora os membros do corpo, de me prostituir compulsivamente, de me tornar uma alcóolatra violenta e insuportável, de injetar substâncias tóxicas diretamente na veia, de subir na mesa do bar a tirar a roupa de maneira inesquecível. Mas minha inclinação a todas essas atitudes moralmente desvirtuadas não deriva de alguma característica específica a minha pessoa. A aptidão que possuo internamente para produzir efeitos desastrosos aos demais seres da minha espécie e a mim mesma não resulta de anos de aperfeiçoamento em atos maldosos, nem mesmo de uma criação diferenciada ou de um trauma infantil que eu tenha, porventura, enfrentado. Claro que estas últimas circunstâncias majoram a amplitude das possíveis consequências e possibilidades dos atos de uma ou outra pessoa. Mas a capacidade maldosa e suja que existe em mim procede pura e simplesmente de minha natureza tão humana quanto a tua. E quaisquer que sejam minhas escolhas ao longo da vida, é plausível que se considerem todas elas inerentes a qualquer um da mesma sociedade em que vivo. Portanto, não negue tua gritante disposição a prejudicar a vida alheia escondendo-a por trás de um caractere um pouco mais acentuado que me é inato. Não recuse a tua própria consciência que te acusa toda vez que apontas ao outro o dedo ou a mão inteira. Certamente eu não divago mais na evidente utopia de que poderemos, em algum momento de nossa história, considerar ao próximo superior a nós mesmos; ou procurar por provas claras de uma acusação que poderá denegrir a imagem de outrem antes de espalhar aos quatro ventos o que ouvimos falar por boatos insignificantes. Mas, devido justamente a esta humanidade que me é congênita, ainda possuo a singular esperança de que alguns olhares sobre mim mudarão algum dia, depois de eu lutar incessantemente para progredir interna e externamente, afinal, é para isso que viemos ao mundo, eu, tu e todos os outros, para avançar.
Eu tive que aceitar desde cedo que recebi mais sentimentos, curiosidade e vontade do que outras 10 crianças juntas e aprendi sozinha a organizar tudo isso, foram cadernos e mais cadernos escritos do início ao fim, com rabiscos e desenhos nos rodapés. Alguns continham até índice. Outros dispuseram de desenhos de anjos com asas, auréolas e nomes próprios, como se algum dia eu tivesse morado no céu. E ninguém sabe ao certo. Eu precisava escrever, poemas, rimas, sonetos, histórias, músicas. Eu precisava tocar instrumentos, aprender idiomas e fazer ballet, precisava me perder em um palco representando inúmeros personagens em frente a uma multidão, eu precisava criar tudo o que não existia, dar nome às árvores e aos pés de alface, conversar com a grama crescendo, eu precisava expressar aquilo tudo que me fora dado com tanta confiança quando nasci. E é por isso que tantas vezes me excedi e disse mais do que deveria, gritei mais alto do que poderia, amei mais do que tinha capacidade, acreditei mais em mim ou nos outros do que era esperado, odiei com mais força do que o normal, fui mais e mais autêntica a cada minuto da minha vida para fazer jus à personalidade confusa, porém eletrizante que me havia sido dada. É por isso que a maioria das rodas de conversa me cansam, como se ninguém fosse suficientemente completo pra me proporcionar um aprendizado comparável ao que cada momento da minha infância me deu. É por isso que prefiro sentar sozinha com meus pensamentos milenares e apaixonantes do que ouvir sobre base líquida para a pele ou sobre que cor de vestido usar na próxima sexta à noite. Eu prefiro mil vezes ler um livro do que sentar em um bar para apostar quem bebe ou beija mais na noite. Eu escolho aquilo que me acresce, escolho o que me deixa maior por dentro, o que alonga a minha capacidade cerebral, espiritual e emocional, eu escolho fazer musculação e sentir cada pedaço do meu corpo querendo viver mais ainda, escolho pedalar no ritmo da música, correr sentindo o cheiro do ar inodoro entrando por minhas vias aéreas e me proporcionando a felicidade inconfundível de permanecer por mais um segundo mesmo quando tudo parece perdido. Eu escolho caminhar de salto alto nos corredores repelindo os olhares maldosos e sentindo as más emoções alheias rebaterem minha pele de aço e voltarem para o lugar de onde vieram. Eu prefiro sistematizar os sentimentos, fazer piada das tristezas, aprender com as revoltas, senti-las em cada centímetro que possuem para depois saber o que fazer com elas. Prefiro ao quadrado a solidão sadia e a escolho toda vez que percebo que uma multidão me ensina muito menos. Prefiro o quanto uma oração ao pé da cama me acrescenta mais do que pessoas invejosas cuspindo frustração ao meu redor. Eu escolho sentir, aprender, ensinar, absorver tudo o que me for possível e vantajoso.

Eu prefiro ser quem te espera na porta pra entender. Eu prefiro ser quem te espera na outra linha pra entender. Eu prefiro ser a louca do jardim enquanto o mundo ri e faz suas coisas. Do que ser quem se tranca nessas salas infinitas suas pra nunca entender ou fazer que não sente ou não poder sentir ou ser sem tempo de sentir ou ser esquecido e finalmente não ser.